segunda-feira, 29 de março de 2010

Definição e Concepções de inteligência

Toda a gente concorda quanto à necessidade que as pessoas têm de agir inteligentemente na grande maioria das situações e, consequentemente, quanto a considerar a inteligência como uma capacidade fundamental nas suas vidas.

Porém, é mais difícil encontrar acordo quanto ao que se considera ser a inteligência, havendo por isso grande dificuldade em a definir. Mesmo quando se consultam especialistas nesta matéria, acaba sempre por concluir-se que há diferentes modos de conceber a inteligência, tantos quantos os pontos de vista específicos e as teorias perfilhadas pelos investigadores. Dado tratar-se de processos mentais, interiores, complexos e não susceptíveis de observação directa, o conceito de inteligência permanece longe de possuir um sentido unívoco.

Os psicólogos estão de acordo, contudo, quanto a considerar a inteligência como um conceito e não uma coisa. Enquanto conceito, é algo de abstracto e imaterial. Dar um nome à inteligência e defini-la é correr o risco de a coisificar e de convencer as pessoas que ela existe como coisa no mundo. Por exemplo, quando se diz que alguém tem um QI de 120 pode fazer crer que existe algo de fixo e material nesse alguém quando, afinal de contas, o 120 não passa de um Índice classificativo obtido num teste particular.

Em virtude do elevado grau de generalidade que apresenta, uma definição amplamente aceite e que tem sido usada por muitos psicólogos, desde os mais antigos aos mais recentes, é a seguinte:

INTELIGÊNCIA

Capacidade que os indivíduos possuem para se adaptarem às circunstâncias em que vivem.

Este modo geral de conceber a inteligência põe em destaque, desde logo, o carácter dinâmico da inteligência como processo adaptativo às situações do meio. Mas, para além desta, muitas outras capacidades ou aptidões são frequentemente referidas por psicólogos de várias teorias, como integrando o conceito de inteligência.

Agrupando o que há de comum na maioria das definições, é possível apresentar como consensual um conceito de inteligência que integra os seguintes aspectos:

1. Capacidade de enfrentar situações novas e de resolver problemas de forma rápida e eficaz.

2. Capacidade de utilizar eficientemente símbolos e conceitos abstractos.

3. Capacidade de aprender rapidamente com a experiência e de adquirir conceitos novos.

Portanto, iremos desde já assumir o ponto de vista de que a inteligência se refere a um processo cognitivo complexo que engloba várias capacidades. Entre elas, fixemos as seguintes:

• Capacidade de adaptação.
• Capacidade de resolver problemas.
• Capacidade de raciocinar ou pensar abstractamente.
• Capacidade de aprender.

Nenhuma destas capacidades actua de modo isolado. Qualquer que seja a que consideremos, ela só opera e se manifesta mediante o concurso das outras. Estas capacidades podem ser vistas como aspectos diversificados mas complementares de uma mesma realidade que é a actividade mental.

Várias concepções de inteligência

É com a inteligência que as pessoas têm de resolver os mais diferentes problemas com que deparam na vida. Viver implica, afinal, ultrapassar obstáculos, isto é, solucionar problemas de natureza diversa.

Os problemas que podemos ser obrigados a resolver são, com efeito, de natureza muito variada. Dizem respeito às nossas relações directas com os objectos que manipulamos, com o meio físico em que evoluímos, com as relações com os homens e com o meio social, com as nossas relações com os conceitos que adquirimos e cuja utilização lógica nos compete assegurar, com as nossas relações com o mundo das imagens que armazenamos e que podemos reconstruir.

O mecânico que deve reunir correctamente as peças de uma máquina, o guia que se deve orientar em regiões mal conhecidas, o chefe que deve resolver todas as dificuldades trazidas pela gestão de um pessoal heterogéneo, o político que deve convencer uma assembleia, o matemático que leva a efeito uma dedução simbólica, o físico que procura a causa de um fenómeno, o filósofo que especula sobre concepções abstractas, o arquitecto que constrói um projecto sujeito a certos fins e a certas condições, o músico que constrói uma sinfonia ou o escultor que realiza uma estátua, todos dão prova de inteligência (...).

Henri Pieron, Psicologia experimental


Animais, crianças e adultos têm que resolver problemas, isto é, têm que descobrir ou inventar meios de atingir os objectivos que se propõem, ultrapassando os obstáculos com que deparam. Porém, são diferentes as situações que para eles constituem problema, bem como os modos que utilizam para os resolver.

Para ilustrar que há diferentes modos de resolver problemas, Sprinthall apresenta-nos a seguinte história:

Dois jovens dão um passeio pelo campo. Um é estudante de pós-graduação em Matemática, o outro abandonou o ensino secundário e é conhecido pela sua "esperteza de rua". Entram num túnel abandonado e, quando vão a meio do caminho, vêem, subitamente, entrar no túnel um urso grande e feroz atrás deles. O matemático puxa da sua calculadora, calcula valores como as distâncias envolvidas e as velocidades a que eles e o urso podem correr, fazendo rapidamente diversas operações. Enquanto isso, o que abandonou a escola descalça as botas e rapidamente calça uns sapatos de ténis.

Não vale a pena - diz o matemático. As minhas equações mostram que não podemos correr mais do que o urso.

O outro replica: - Talvez, mas da maneira como vejo a questão, não precisamos de correr mais do que o urso. O que é preciso é que eu consiga correr mais depressa do que tu.

Psicologia educacional



Atendendo às diferentes formas de resolver inteligentemente as situações problemáticas, há quem faça a distinção entre inteligência prática e inteligência conceptual.



• Inteligência conceptual

Esta forma de inteligência, presente na forma de raciocinar do homem adulto, pode definir-se como a capacidade de resolver problemas por intermédio de conceitos e noções abstractas que podem ser verbalmente expressos.

Lidar mentalmente com abstracções, nomeadamente com palavras, conceitos e outros símbolos é o que, genericamente, se designa por pensar. Ora, os problemas cuja resolução implica a intervenção do pensamento obrigam a uma actividade mediatizada, isto é, entre a situação problemática e a resposta que há-de solucioná-la há o espaço do problema em que os conceitos desempenham papel fundamental: por eles se representa a situação posta; recordam-se outros relativos a experiências passadas; com eles se projectam hipóteses de solução; com eles se avaliam essas hipóteses, prevendo o que acontecerá se forem postas em prática.

Aos conceitos se associam palavras, pelo que a inteligência conceptual é uma inteligência verbal. As palavras não são mais que uma espécie de rótulos dos conceitos. As pessoas, quando pensam, pensam verbalmente e de acordo com regras de gramática aprendidas.

A inteligência conceptual é aquela a que se refere o termo inteligência quando usado pela generalidade das pessoas da civilização ocidental. De facto, a tradição ocidental desenvolveu um conceito de inteligência, valorizado pela classe média das sociedades industrializadas, que muito tem a ver com a instrução e as aprendizagens escolares: incidência nos aspectos verbais, no raciocínio, designadamente no cálculo matemático. Noutras circunstâncias culturais e históricas, provavelmente considerar-se-ia fundamental outro tipo de inteligência.


• Inteligência prática

O conceito de comportamento inteligente varia com a situação e os contextos culturais.

Binet e Terman consideravam que a criança inteligente era a que revelava capacidades adequadas à obtenção de sucesso escolar.

Porém, nas ilhas do Pacífico Sul talvez o padrão de inteligência consista, por exemplo, na aptidão para pescar e navegar. Para um vendedor da nossa sociedade talvez seja a sua capacidade de relacionamento social e para um citadino talvez seja a sua "esperteza de rua". Se um grupo de geólogos se perder no deserto, certamente que o beduíno que os acompanhou para cuidar dos camelos dará provas de superioridade intelectual, ao conduzi-los a lugar certo.

François Jacob afirma, a propósito da relatividade do conceito de inteligência:

Não há uma, mas várias inteligências. Imaginem Einstein no meio da floresta virgem: não teria sido ele o melhor! (...) A inteligência é a capacidade de responder às situações mais difíceis e de prever os efeitos que daí decorrem.


Considerando a inteligência como a capacidade de o homem resolver os problemas com que depara na sua adaptação ao meio, várias formas de inteligência se manifestam, que, para as distinguir da inteligência conceptual, incluiremos na inteligência prática. Esta é assim a capacidade de resolver problemas por intermédio de percepções, acções e movimentos que se expressam no fabrico e utilização de instrumentos.

A inteligência prática, desenvolvida fora da escola com a experiência do dia-a-dia, é usada por todos os homens nas mais diversas ocasiões.

Antes do aparecimento das modernas tecnologias, a inteligência prática manifestava-se no modo simples de fabricar e usar utensílios. Muitos homens tinham que fabricar os seus próprios objectos e ferramentas, experimentando as formas que melhor se prestavam ao seu manuseamento e melhor se ajustavam aos fins que pretendiam alcançar. Mesmo com o aparecimento da tecnologia, ela continua a ser imprescindível ao homem para saber usar e tirar partido dos equipamentos de que dispõe. Grande parte das tarefas implicadas no exercício das profissões são executadas com a intervenção deste tipo de inteligência.


Todavia, ao deixarmos o domínio dos conceitos e entrarmos na inteligência enquanto capacidade de o homem se adaptar às circunstâncias, tal distinção deixa de ter sentido. É que mesmo os problemas práticos do quotidiano requerem soluções em que o universo conceptual acaba por interferir.

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